Exportando passivos ambientais: “Brasil quer construir hidrelétricas na Guiana”

Quando pensamos em exportação, em geral pensamos em produtos industrializados ou mesmo em commodities (matéria prima, como Madeira, Soja, Minérios, etc.), mas para além de produtos, também é possível incluir outras categorias na pauta de exportação: pessoas (de forma legal ou ilegal, para trabalho nas indústrias e lavouras ou para o sexo, por exemplo) e, cada vez mais, modelos de gestão ambiental. Quanto a esse último ponto, me chamou a atenção uma reportagem em “O Globo” referente a exportação direta, para nossos vizinhos Guiana e Suriname, da demanda energética brasileira. E quando ocorre esse tipo de demanda, especialmente pelo desnível de hard e mesmo soft power entre os países (Brasil, de um lado, e Guiana e Suriname do outro). E porquê digo isso? O Brasil – não nos enganemos – é um player no cenário Sul americano. Deseja e promove por meio de seus governos, tanto política quanto economicamente, os “interesses” brasileiros (o que, verdade seja dita, interesses diretos de grupos econômicos nacionais e, indiretamente, de maiores coletividades, algo usual no jogo político internacional).

  imageE ao pensarmos em recursos naturais, o Brasil se sai muito bem, especialmente do ponto de vista da sua capacidade energética. Mas quanto maior o potencial ambiental-energético que se tem no Brasil, maior a capacidade de se investir de forma pouco responsável para a otimização dos bens e serviços ambientais. Retomo, nesse sentido, a matéria de “O Globo” intitulada “Brasil quer construir hidrelétricas nas Guianas”. Não é fortuita. O modelo hidroenergetico brasileiro gera um passivo socioambiental significativo (que o diga a luta por compensações, entre outras bandeiras legítimas do Movimento pelos Atingidos por Barragens) e agora os “braços” do Estado brasileiro, como Eletrobras (a Petrobras faz o mesmo, assim como as grandes empreiteiras privadas) buscam oportunidades de implementar, em países com legislações ambientais muito mais frágeis que a brasileira, um modelo de hidroelétrica de alto impacto ambiental. Esse tipo de notícia me deixa alarmado, especialmente porque indica a política energética unidimensional do governo brasileiro, deixando de privilegiar outras abordagens como a solar, eólica, etc., o que demandaria investimento em pesquisa e, bom, investir em desenvolvimento científico de maneira assertiva nunca foi o forte de governos brasileiros.

Abaixo segue na íntegra a matéria de “O Globo”:

“Banidas no Brasil, as hidrelétricas com barragens podem voltar a ser feitas pela Eletrobras, mas desta vez no exterior. A estatal está realizando estudos para construir três usinas no Suriname e na Guiana e uma linha de transmissão de 1.800 quilômetros, que ligará os estados do Amapá e de Roraima aos demais países e à Guiana Francesa. Ou seja, o Brasil construiria as usinas com reservatórios nestas nações e a energia seria utilizada, em grande parte, por brasileiros.

O projeto, denominado Arco Norte, tem o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Segundo os estudos preliminares, a capacidade destas usinas seria de 5.000 MW, o que equivale à soma do potencial da hidrelétrica Jirau, no Rio Madeira (RO) e da nuclear Angra 2. Essa capacidade é suficiente para abastecer uma região com nove milhões de pessoas, ou a população de Pernambuco. Também participam do projeto a francesa EDF, a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) e instituições da Guiana e do Suriname.

Oficialmente, a Eletrobras afirma que a construção com barragem depende do acordo com os países vizinhos, mas fontes da estatal confirmam que este é o grande interesse brasileiro no projeto. Estas fontes dizem que a construção de hidrelétricas com reservatórios daria mais segurança e permitiria que o debate sobre o tema voltasse ao Brasil.

projeto reabre polêmica

Como serão na Região Amazônica, estas usinas funcionariam como “reserva” das novas hidrelétricas brasileiras, também na área da floresta, porém sem reservatórios — elas utilizam a tecnologia fio d’água, que tem menos impacto ambiental por não alagarem grandes áreas — como Jirau, Santo Antônio e Belo Monte (PA).

“Os maiores ganhos identificados nesses projetos estão relacionados à complementaridade dos regimes hidrológicos das regiões das Guianas e do Brasil. Isso proporcionaria otimização energética na Amazônia e também o aumento da confiabilidade dos sistemas elétricos dos dois países”, afirmou a estatal por e-mail.

A Eletrobras afirma que os estudos estão em fase preliminar e que não se sabe qual será o acordo com estes países. Mas fato é que a construção destas hidrelétricas só se viabiliza com o consumo brasileiro. Juntos, os três países tem população de 1,7 milhão de pessoas, ou seja, utilizariam apenas um terço do potencial energético do projeto Arco Norte.

Esse projeto, que ainda não tem valor de investimento definido, escancara o debate sobre qual o melhor modelo energético para o país. Ambientalistas, em geral, são contrários tanto à construção de usinas com barragens — pelas grandes áreas inundadas — quanto à construção de usinas na Amazônia. Industriais e grandes construtores, por sua vez, afirmam que as consequências a esta proibição são ainda mais danosas ao meio ambiente, pois o país está gerando energia com termelétricas, para suprir energia no período de falta de chuvas nas hidrelétricas sem reservatórios.

— O Brasil parou de construir usinas com reservatórios, mas elas continuam a serem feitas pelo mundo. As hidrelétricas podem ser importantes para irrigação, controle de enchentes, para transporte, se forem feitas as eclusas. O debate não pode ser apaixonado — disse Roberto D’Araújo, diretor do Instituto de Desenvolvimento do Setor Energético (Ilumina).

Miguel Sória, diretor do Comitê Brasileiro de Barragens, afirma que este projeto só tem sentido se for feito com reservatório:

— Hoje o Brasil depende das usinas termelétricas, que poluem mais, por ter optado pelo fio d’água. O país está desperdiçando potencial — disse.

Pedro Bara, líder da Estratégia de Infraestrutura da Iniciativa Amazônica da Rede WWF, afirma que as usinas do Suriname e da Guiana não precisam ter grandes reservatórios para serem interessantes:

— Há complementariedade hidrológica ente a Guiana e o Suriname e o Brasil, ou seja, quando é seca em Belo Monte chove lá. Assim, esse projeto é muito interessante não apenas pelo seu potencial, mas por serem 5.000 MW em plena seca, isso significa desligar termelétricas diretamente — disse ele.

fontes renováveis são opções

Bara lembra que é necessário novas fontes renováveis, como eólica, biomassa e solar.

— Tem de haver o licenciamento de rios inteiros, pensar todo o sistema. Vale mais, por exemplo, ter cinco usinas em um rio, que já será todo alterado, que uma hidrelétrica por rio. Temos que discutir o que queremos preservar — disse.

Adriano Pires, presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), duvida destas hidrelétricas, pela falta de investimentos da Eletrobras e critica o projeto:

— A Eletrobras não sabe para onde vai, está sem bússola.”

© 1996 – 2013.

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